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Naquela noite o vento era frio e seco, cortante, queimando tudo em seu redor, desde a inocente vegetação à fraca pele dos rostos dos vultos que se viam mover na rua. Íamos bem agasalhados e fazíamo-nos acompanhar de duas garrafas de vinho de qualidade média, para aquecer o interior. O sem abrigo continuava acordado, ainda a tentar que alguns carros estacionassem nos lugares para onde ele os impingia, sempre de cigarro no beiço, com a sua enorme barba, amarela junto ao bigode, fazendo-se acompanhar do seu boné desgastado e a dar a sua palestra para ninguém. Tinha umas mãos grandes e grosseiras, que lhe davam um ar rude, ao contrário da sua maneira de ser, da sua simpatia para com toda a gente que passa na rua. "Bom dia, como está o senhor ? Eu estou bem, obrigado !"

- Queres ir dar uma volta ao bairro ?
- Sim, alinho.

Ao entrar na primeira rua, já com montes de jovens junto à padaria, outros quase a cair de bêbados a sair do bar em que se descem dois degraus, um manto negro cobriu toda a cidade, todas as luzes apagaram; ficaríamos então estáticos a olhar para a única luz natural que não é natural, a da lua. A silhueta de toda uma cidade ficaria agora mais definida, visto que os pontinhos luminosos que decoravam e baralhavam todo aquele turbilhão se haviam extinguido. E era bela a cidade, assim vista de um local com bom alcance paisagístico. Uma ausência total de qualquer fonte luminosa terrestre que invadiria também o interior de cada um de nós. Estranhamente, nem os jovens delinquentes com ar autoritário que têm como hábito assaltar toda e qualquer pessoa que vislumbrem, tiveram qualquer reacção, o que não era de esperar, dado o medo que penetrou em cada pessoa que se encontrava numa noite normal de diversão, com as suas garrafas de álcool, ou um cigarro, ou uma substância qualquer fumável misturada com tabaco, no interior duma mortalha. Senti a tua aproximação envergonhada e discreta; a minha mão que não transportava a garrafa de vinho que já se encontrava meia, sentiu o calor da mão que trazias no bolso. O medo desaparecera ali nesse instante, e o meu interior iluminou-se. O calor transmitido por aquela mão, rapidamente se espalhou pelo corpo todo, pela alma. Continuei, tal como tu, a olhar para os pontinhos que iluminavam o céu, sem saber o que pensar, sem saber o que fazer, mas com uns milímetros da minha expressão facial alterados. Era a primeira vez que sentia que me pedias protecção, duma maneira não totalmente explícita, mas duma maneira que me tranquilizou e protegeu também. Aproximámo-nos os dois, inocentemente, até ficarmos colados, lado a lado. Eu larguei a tua mão, e passei a minha mão pelo teu cabelo tão macio, pelo qual já me tinha apaixonado sem lhe tocar. Não precisámos de pronunciar qualquer palavra durante todo esse momento desde que escureceu até ao nosso interior se iluminar, os nossos olhares tomaram conta das nossas reacções, ao cruzarem-se naquele espaço de ninguém que separava a minha face da tua. Aquele inevitável beijo que se seguiu foi um desviar de emoções do vazio para um lugar bem aproveitado que seria finalmente ocupado com uma lufada de alegria e tranquilidade. De olhos fechados continuava a ver os pontinhos luminosos que observara anteriormente na imensidão que é o céu. Tu colocaras os braços à minha volta, a minha mão que não transportava o vinho continuava no teu cabelo, o meu braço esquerdo dava-te uma tentativa de abraço. E tudo era infinito naquele momento. E tudo era o que desejava há meses. E tudo me dizia que era um sonho. E tudo e tudo e tudo e tudo e tudo ... Ao mesmo tempo, abrimos os olhos. Ambos os olhares pareciam hipnotizados, limitando todos os nossos movimentos corporais naquele momento. A única parte do corpo que se podia observar a mexer, seriam os nossos sorrisos, de orelha a orelha. Um minuto e meio de paralisação e algo desviou a nossa atenção. A luz teria voltado. A vida naquela rua era agora como todos os outros dias de enchente. Por trás do caixote do lixo da outra rua já estava pessoal a urinar. Um jovem gregava quase em frente à porta do bar. O pessoal com ar mais duvidoso voltara a ter uma postura agressiva a impor respeito para os mais inocentes que por ali passavam, sempre na tentativa de encher os bolsos de telemóveis, moedas, notas, droga ... O dealer acabava de chegar, sempre de mãos nos bolsos, com um sorriso estampado, e com grande falange de pessoal a aguardar a sua chegada, na rua antes da farmácia.

- 'Bora ao Catacumbas ?
- Boa ideia. Siga !
©2008-2009 ~PikadvsHorrendvs
:iconpikadvshorrendvs:

Author's Comments

Para quem ler, se tiver erros, digam-me sff.
Obrigado :)

Comments


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:iconmissminamurray:
"Aproximámo-nos os dois, inocentemente, até ficarmos colados, lado a lado."

Pois pois, o que tu queres sei eu lol
Estou a brincar contigo. Gostei da simplicidade trabalhada. Dos adjectivos, da forma como escolheste as palavras, pontuais e abstractas ao mesmo tempo. Da história em si ter sido colocada "numa noite qualquer". Muito humana, muito "girl next door".
Gostei ;)

--
"When people agree with me I always feel that I must be wrong."
:iconpikadvshorrendvs:
Uau. Incrível, que sentido crítico, o da rapariga, quem diria ! ahah Também Estou a brincar. :P
Muito obrigado pelas tuas palavras. :)
As minhas cenas são todas simples, acho que não consigo escrever de outra maneira.
*
:iconmissminamurray:
Tenta escrever enquanto fazes o pino (só pa ver o que sai lol)

--
"When people agree with me I always feel that I must be wrong."
:iconpikadvshorrendvs:
Sim, tão eu costumo fazer o pino bué vezes ... lol
Logo o que sai é algo como nada. ahah

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March 22, 2008
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